Editorial Ave Rara
Apartado
38
4830
Póvoa de Lanhoso
Fax
253 634 093
Tel
253 631200
terrasdelanhoso@hotmail.com
Fundada
em 1997 e tendo como responsável editorial o escritor José Abílio
Coelho, a “Editorial Ave Rara” está ligada ao projecto do
periódico “Terras de Lanhoso”.
Edições:
1 – História
da Revolução da Maria da Fonte
AZEVEDO
COUTINHO
2 – Caminhos
de Terra Batida
JOSÉ
ABÍLIO COELHO
3 – Dinis
Arão
ALÍRIO
DO VALE
4 – Trapos
JOSÉ
ABÍLIO COELHO
5 – Os
Melhores Contos de «Os Putos»
ALTINO DO TOJAL
6 – Contos
do Minho
COLECTÂNEA
DE CONTISTAS MINHOTOS
Contos
do Minho
Alexandra
Fernandes, Altino do Tojal, António Celestino, Cláudio Lima, Cunha de
Leidarella, Fernando Pinheiro, Francisco Duarte Mangas, João Lobo, João
Marcos, Jorge Tinoco, José Abílio Coelho, José Leon Machado, José
Miguel Braga, José Salgado Leite, José Terra, José Vieira, Maria
Ondina Braga, Maria do Pilar Figueiredo, Miguel Duarte Soares e Vergílio
Alberto Vieira são os vinte escritores que integram a colectânea «Contos
do Minho», recentemente lançada pela «Editorial Ave Rara».
Dos
vinte contos que a integram, dezoito são inéditos.
O livro pode ser encontrado nas livrarias ou
pedidos através do email: terrasdelanhoso@hotmail.com
Jornadas
Literárias
In:
Terras de Lanhoso
O
debate surgido no decurso da apresentação da colectânea «Contos
do Minho», que teve lugar no Theatro Club da Póvoa de Lanhoso na
noite do passado sábado, dia 15 de Fevereiro, levou a vereadora da
Cultura da Câmara Municipal, Maria Rita Araújo, a propor a realização
de umas jornadas literárias em torno dos temas em debate, colocados por
vários dos participantes na cerimónia e que, dado o adiantado a hora a
que a sessão terminou, ficaram longe de ser esclarecidos.
A
maioria dos escritores presentes na belíssima sala de espectáculos
aceitou o desafio, pelo que, ainda este ano, vão realizar-se na Póvoa
de Lanhoso as Primeiras Jornadas Literárias do Minho, alargadas
a outros prosadores e poetas não integrados na recolha de contos agora
lançada, desde que naturais ou residentes na área geográfica. A Câmara
Municipal da Póvoa de Lanhoso vai patrocinar o encontro, sendo certo
que várias associações de escritores e homens de letras da região
serão convidadas e juntar-se ao projecto.
À
apresentação deste trabalho, que integra textos de vinte contistas da
região e a que o escritor Fernando Pinheiro classificou «um marco
fundamental na história da literatura da nação que é o Minho»,
estiveram presentes uma dezena de contistas e cerca de uma centena de
pessoas que quiseram marcar presença na cerimónia, considerada «um
alegre convívio entre quem escreve e quem lê.»
O
livro está, entretanto, a tornar-se um sucesso editorial.
Sugestões: terrasdelanhoso@hotmail.com
Entrevista
do escritor e editor José Abílio Coelho
aos
alunos da Escola Profissional de Mazagão (Braga)
Entrevista: Fátima
Teixeira
P
— Pode dizer-nos como surgiu a ideia de editar a obra «Contos do
Minho»?
R —
Em conversas mantidas com alguns amigos escritores, aí pela Primavera
de 2002, concluiu-se que não existia, na história da Literatura
Portuguesa, uma recolha de trabalhos de contistas exclusivamente
minhotos. Havia, como há, várias antologias de contos e contistas
portugueses, vivos ou mortos, que inserem alguns contistas naturais do
Minho, mas uma que integrasse apenas contistas nascidos no Minho, não.
Foi a partir dessa conversa que a ideia começou a desenvolver-se. É
claro que, durante alguns meses, foi sendo amadurecida, até porque uma
edição destas traz elevados custos financeiros e, como sabe, os hábitos
de leitura no nosso país são reduzidos e isso desanima todo e qualquer
editor a investir. Mais tarde, assumida que estava a ideia de avançar,
foram estabelecidos alguns princípios, e desde logo que a colectânea
reuniria apenas contistas nascidos no Minho e em plena actividade. A
partir daí, desenvolvi contactos, estudei possibilidades, procurei
patrocínios, iniciei a recolha e... a obra aí está pronta para ser
lida. Gostaria de frisar, contudo, que, apesar dos muitos nomes sonantes
que a colectânea comporta, haverá outros bons escritores que terão
ficado de fora. Mas não está de todo afastada a hipótese de, se esta
edição vier a ter o sucesso que espero, se proceder em breve a uma
segunda recolha, editando-se então um segundo volume de «Contos do
Minho».
P
— Qual foi o objectivo ao reunir este grupo de escritores e qual o público
alvo a atingir?
R —
Os contistas inseridos são uma escolha pessoal do editor, isto é, uma
escolha minha. Conhecia bem a esmagadora maioria deles, pedi-lhes um
conto inédito, e o acolhimento à minha proposta foi excelente. E devo
recordar que entre os vintes contistas reunidos estão nomes destacados
da Literatura nacional. Quanto ao público alvo, penso poder dizer que
ele não existe, porque a colectânea é destinada a todo o tipo de
leitores. Como saberão, o conto literário está hoje na moda. É um
tipo de texto que se lê rápida e facilmente entre o jantar e o
telejornal, ou entre o momento em que nos deitamos (aqueles que têm
esse bom hábito...) e aquele em que adormecemos, ou enquanto esperamos
pelo autocarro ou pela consulta na sala de espera do nosso médico. E
neste livro há, como poderão aperceber-se, contos para todos os gostos,
uns mais clássicos, outros mais modernos, uns mais longos, outros
ocupando apenas uma página. O mesmo é dizer que, neste livro de 208 páginas
e que custa apenas 12, 5 euros, podem encontrar-se estórias para
todos os gostos e situações...
P
— Porquê a disparidade de idades?
R —
Um escritor, ao contrário de um jogador de futebol, não tem “prazo
de validade”; pode escrever até aos cem anos, se lá conseguir chegar,
e sempre com a mesma pujança. Assim sendo, quando fiz os convites aos
autores, importei-me apenas com a qualidade, e não com as idades.
Porque um jovem de vinte anos pode ser tão excelente contista como um
homem de oitenta ou noventa. Para além disso, e porque sei as
dificuldades que há em se publicar pela primeira vez, convidei, a
conselho de dois amigos, o José Miguel Braga e o Vergílio Alberto
Vieira, que os conheciam e dos quais o primeiro foi professor, dois
jovens, dois excelentes contistas, para integrarem a colectânea. O
convite foi aceite, e isso deu-me imenso prazer...
P
— Tem-nos sido difícil encontrar informação sobre determinados
autores. Existe alguma razão específica?
R — A
Internet é, hoje, uma das mais procuradas fontes de informação. Mas só
se encontra na “net” a informação que lá é colocada. E muitos
autores não estão para aí virados, ou porque não dominam a informática,
ou porque não gostam de se expor em demasia ou, simplesmente, porque a
oportunidade não lhes bateu à porta. Mas creio que há, sobre grande
parte dos autores, informação suficiente disponível. Se me permite,
acho, contudo, que não podemos falar apenas na “net”, devemos falar
noutro tipo de publicitação. E como em tudo na vida, há escritores
mais privilegiados nesse tipo de divulgação, mais mediatizados, que
outros... é uma questão de moda ou, em muitos casos, de se entrar em
determinados circuitos o que, não transformando ninguém em melhor
escritor, lhe dá maior visibilidade. Por exemplo: se um escritor
publicar bons livros, continuará a ser uma figura quase desconhecida a
não ser por um grupo reduzido de leitores. Mas se esse escritor tiver
amigos na televisão, em certas revistas, que não as literárias...
vamos fazer uma suposição: se um escritor desconhecido fosse convidado
e aceitasse, por exemplo, ir passar umas semanas a um programa como o Big
Brother, então, passava a ser uma figura nacional, de todos
conhecida, não pelo que escreveu, mas pela relação de
“intimidade” que estabeleceria com os espectadores que, em programas
deste (baixo) nível são mais que muitos. Eu acho tristíssimo, por
exemplo, que muitos concidadãos nossos não saibam quem foi Egas Moniz,
o primeiro Prémio Nobel português, ou quem escreveu «A Casa Grande
Romarigães», ou quem foi o arquitecto que projectou a Ponte da Arrábida,
e que todo o país conheça e endeuse um Tino de Rãns ou uma Linda
Reis... Talvez sejamos um país de imbecis! Talvez a biografia dessas
pessoas, e de outras do mesmo género, esteja na Internet com todos os
“quês”, fotografia incluída. Mas o que se pode fazer contra isso?
P
— Os objectivos propostos foram atingidos?
R —
Os objectivos a que nos propusemos foram os de dar a conhecer ao grande
público o trabalho de vinte contistas do Minho. E, esses, com maior ou
menor número de vendas, foram atingidos, sim. E espero que o livro
continue a vender, e que, especialmente os mais jovens, o leiam.
P
— Qual o sucesso inicial da obra?
R —
Num mês, venderam-se quase mil exemplares exemplares. Muito, se
comparado com os seiscentos ou setecentos exemplares que o poeta
Fernando Assis Pacheco conseguia vender da sua excelente poesia por cada
livro editado; muito pouco se comparado com os vinte ou trinta mil
exemplares que alguns livros sem um mínimo de qualidade vendem no
primeiro mês de “escaparates”.
P
— Qual o porquê de se terem baseado no critério de os vinte
contistas serem minhotos de nascimento?
R —
Creio ser opinião comum que os escritores têm como base para os seus
textos de ficção grande parte dos “olhares e cheiros” que lhes
ficaram da infância. Nessa perspectiva, era assim mais fácil que, se
os autores tivessem nascido no Minho, os «Contos do Minho» fossem mais
“contos no Minho”. Depois, colocava-se-nos esta questão: e dos que
vivem no Minho sem cá terem nascido, quantos podem efectivamente ser
considerado “contistas minhotos”? Um escritor que reside no Minho há
vinte anos deixará se escrever com o coração no Alentejo, na Beira
Alta ou até ou Moçambique, se lá nasceu e cresceu? Mas, ao contrário,
escritores como Cunha de Leiradella, que vive no Brasil há quarenta
anos, ou José Terra, que é professor da Sorbonne, em Paris, cidade
onde reside há várias décadas, conseguiram escrever para estes «Contos
do Minho» textos que retratam fielmente a região e agente que somos...
No fundo, ao escolher contistas nascidos no Minho, queria-se, e acho que
se conseguiu, que os contos tivessem o Minho por “pano de fundo”.
P
— Alguns dos contos retratam experiências vividas pelos escritores.
Porquê?
R
— O que atrás disse já mostra de alguma forma a razão pela qual
toda a estória é, ao mesmo tempo, história: porque todo o conto, todo
o romance tem um fundo de verdade. O genial Camilo Castelo Branco
contava nos seus romances, novelas e contos aquilo que conhecia, as
situações que observava, as peripécias que lhe chegavam aos ouvidos
ocorridas nas vizinhanças, e às vezes, inclusive, usando nomes, topónimos
e datas reais. García Márquez, o Nobel colombiano, acabou de editar o
primeiro volume da sua autobiografia e, quem conhecer a sua obra, sabe
que este livro tem ali muito de «Cem Anos de Solidão», de «Crónica
de Uma Morte Anunciada», de «Horas Más», de «Ninguém Escreve ao
Coronel». É inegável de García Márquez fez dos acontecimentos da
sua infância e juventude a base da sua obra de ficção. Jorge Amado,
meu amigo, disse-me um dia, quando eu publicava os meus primeiros contos:
“Escreva sempre sobre aquilo que conhece bem, sobre aquilo que viu. Se
se meter por caminhos que desconhece nunca conseguirá transmitir
verdade ao leitor.» Julgo que esta afirmação de um grande mestre diz
tudo. Aliás, contam os amigos mais próximos do mestre romancista que,
certa ocasião, um senhor todo poderoso da Bahia terá dito mal do autor
de «Gabriela, Cravo e Canela». Dias passados, um amigo do romancista
terá bufado ao ouvido do tal senhor: “Não diga mal de Jorge, não
queira seu desafecto. Olhe que ele bota você de corno no próximo
romance, e ninguém vai acreditar que o não seja.» E perante o olhar
atónito do receptor da mensagem, o amigo de Jorge Amado concluiu: “Se
ele o fizer, todos vão acreditar que é verdade, pois ele só conta a
verdade verdadeira nos seus romances...” Em geral, o escritor não
inventa, conta estórias às quais pode acrescentar ou retirar pedaços,
dando vida a personagens... aos quais pode, por vezes, acrescentar
virtudes ou defeitos, como por exemplo o que atrás refiro. Aliás, já
me perguntaram, em várias situações, que diferença existe entre a
reportagem jornalística — como sabe, sou jornalista — e a ficção.
E eu costumo responder: “Apenas uma: na reportagem, apuramos factos e
contamos a história sem podermos fugir a nada, nem aos nomes, nem às
datas, nem à sequência de factos, a nada... Na ficção, usamos a
mesma matéria prima, mas temos a liberdade de poder trocar os nomes, as
datas, os locais e, se o quisermos, podemos até dar à estória um fim
mais ou menos feliz. Mas os rostos são os mesmos, como os gestos, os
olhares, as lágrimas ou os sorrisos, o mesmo acontecendo com os
ribeiros, as montanhas ou a cor das fachadas das casas que usamos para
situar cada estória. Por isso, para contar o Minho, quis escolher
escritores nele nascidos...