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Notas Críticas |
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Alguns textos críticos sobre a ficção de José Abílio Coelho:
«José
Abílio Coelho precisa de caminhar em frente; sua vocação é evidente, e
lhe sobra talento» JORGE AMADO, sobre «Contos do Outro Mundo» «Não é fácil a arte do conto. Daí o existirem tão poucos verdadeiros
contistas na literatura portuguesa. Escrever um autêntico conto exige, ao seu autor, todo um poder de síntese
e de carga emocional que não é vulgar. No conto, mais do que em qualquer
outro tipo de ficção, os factos, em vez de serem narrados, acontecem. E
acontecem sempre para surpresa do leitor que, a maior parte das vezes, não
espera por esse desfecho. Mas, independentemente da surpresa do desfecho,
o que marca o conto é o choque emocional, que é paulatinamente criado e
domina o leitor. Não é pois fácil jogar com todos estes factores e construir, desse modo,
um verdadeiro, um autêntico conto. Contar histórias, narrar
acontecimentos há muito quem, melhor ou pior o faça. Mas escrever um
verdadeiro conto, digno desse nome, não é para qualquer um. José Abílio Coelho evidenciou, desde o início, ser senhor de todas as
qualidades que fazem um verdadeiro contista. Sabe contar, sabe apropriar-se
da emoção do leitor, que arrasta atrás do seu escrever fluente e
sentido, e sabe construir todo um universo necessário e indispensável no
pequeno e, ao mesmo tempo, grande mundo do conto. Lê-se
com grande agrado e, sobretudo, com emoção, ao passo que fica em nós a
certeza de que um grande contista se está construindo, na sinceridade das
palavras certas e na verdade das emoções sentidas.» ORLANDO
DE ALBUQUERQUE, sobre «Caminhos de Terra Batida» «Escrever e contar, sendo dois actos simultâneos do mesmo processo,
constituem duas questões distintas. José Abílio Coelho utiliza uma
linguagem simples, clara, incisiva, própria de quem se familiarizou com a
leitura dos clássicos contemporâneos universais e os mestres consagrados
da língua e da literatura portuguesas. Tem ainda o poder de comunicar, a
arte de construir uma estória, o dom narrativo que mobiliza a atenção,
conseguindo separar o essencial do acessório sem perder o sentido do
pitoresco que agarra o leitor.» ANTÓNIO
VALDEMAR, in «Diário de Notícias» Trapos
da mais pura seda natural Por:
Cunha de Leiradella A evolução é um facto. E se Charles Robert Darwin ainda a não tivesse provado no seu A Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida, poderíamos dizer que o escritor José Abílio Coelho também teria condições de compravá-la. Evidentemente que a distância temporal entre o Pithecanthopus erectus e o Homo sapiens é muito maior que entre o Contos do Outro Mundo e estes Trapos, que agora nos é apresentado. Mas se o homem racional de hoje passou pelo elo intermediário do pitecantropóide, a perfeição deste último texto de José Abílio Coelho também passou pelo crivo dos seus primeiros contos. O que não quer dizer que, em 1994, data da publicação dos Contos do Outro Mundo, José Abílio Coelho ainda não soubesse a diferença entre um erectus e um sapiens. Como dizia o saudoso João Felício dos Santos (autor de João Abade, Major Calabar, Ganga Zumba, Carlota Joaquina, Xica da Silva e tantas outras obras-primas da literatura brasileira), escritor bom é pleonasmo. Por isso, um escritor se identifica com uma única palavra: bom ou nada. E foi, justamente, na forma de contar aqueles Contos do Outro Mundo que José Abílio Coelho mostrou que a única palavra que o poderia identificar seria bom. Cinco anos depois, em 1999, mais um passo na evolução da carreira literária de José Abílio Coelho. O bom dos Contos do Outro Mundo passou ao excelente dos Caminhos de Terra Batida. Narrativas simples, sem arroubos metafóricos ou grandiloquentes mensagens (o autor fazendo do seu umbigo o centro do universo e os papalvos aplaudindo a divinização umbilical), criadas com aquela simplicidade, com aquela espontaneidade e com aquela sinceridade que fizeram de Ernest Hemingway, por exemplo, um dos maiores escritores do milénio que findou. Mas o excelente ainda não era o fim da evolução de José Abílio Coelho. E a provar isso ele traz agora estes óptimos Trapos. Na verdade, uma pequena obra-prima da arte de narrar. Vale a pena transcrever o primeiro parágrafo, pois ele mostra o grau de perfeição que a prosa de José Abílio Coelho atingiu nas 24 páginas deste conto: «O corredor era branco, estreito e comprido. De ambos os lados, aferradas às paredes nos intervalos existentes entre as várias portas que davam acesso aos gabinetes médicos, havia macas assentes em estruturas metálicas e sobre elas doentes e acidentados à espera de vez para serem atendidos. Estranhamente, todos eles se encontravam em silêncio, como se pensassem que só a morte é barulhenta.» Um estilo seco, directo, incisivo, sem uma palavra sequer a mais ou a menos, e cada frase dizendo, exactamente, o que tem que se dito, sem qualquer explicação ou adendo desnecessário. Como se a realidade tivesse sido fotografada e, ao ser revelada, nos mostrasse, não o imobilidade das coisas mortas, mas o movimento e a essência do mundo que nos rodeia. Na verdade, é como se o leitor estivesse ao seu lado e compartilhasse do seu campo visual. E um campo visual objectivo, absolutamente prático e positivo, em tudo condizente com o estilo narrativo, no qual os personagens são constituídos com meia dúzia de pinceladas (e, às vezes, até menos) mas apresentados todos por inteiro. Como realmente são e como se mostram uns aos outros. E o que é mais importante ainda, cada um falando a sua própria linguagem. Cada palavra tendo um sentido próprio, específico, traduzindo o sentir de quem a diz, sem a menor interferência do autor. Com estes Trapos podemos dizer que José Abílio Coelho atingiu o topo da arte de narrar. Coisa, infelizmente, tão pouco praticada e levada a sério nas últimas décadas do milénio que findou. A lamentar, apenas as poucas páginas do texto, pois o prazer da leitura nos faz desejar, ao invés de 24, 240 ou até 2400. |
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