Jornal
«Terras de Lanhoso»

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Fundado
em Outubro de 1996, o jornal «Terras de Lanhoso» é um periódico
de informação geral, embora mantenha uma forte vertente cultural e a
divulgação da história da região tenha lugar de destaque nas suas páginas.
O
escritor José Abílio Coelho é o seu director desde o primeiro número.
Tratando-se
de um quinzenário da Imprensa Regional, está fortemente vocacionado
para as populações da Póvoa de Lanhoso e para os emigrantes da região
espalhados pelos quatro cantos do mundo, que o podem receber por
assinatura, estando também disponível nas bancas de quiosques e
livrarias
Entre
aqueles que já publicaram nas suas páginas encontram-se figuras de
relevo no campo das letras e da historiografia como António Celestino,
Artur F. Coimbra, Cláudio Lima, Dário Castro Alves, Cunha de
Leiradella, Jorge Amado, Altino do Tojal, Fernando Aldeia, David Lima,
Maria do Carmo Celestino, Sonia Salles, Barroso da Fonte, José Bento da
Silva, AluysioSampaio, Paulo Ribeiro Freitas, Jorge Eduardo da Costa
Oliveira ou Teresa Roriz.
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A
MINHA ÚLTIMA CONSOADA
Por Cunha de Leiradella
Lembro-me
como se fosse hoje da última Consoada que passei em Portugal. Os
jornais, com o indefectível carimbo no canto superior direito da
primeira página, VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA,
avisando que a Consoada daquele ano de 1957 seria numa terça-feira de
lua nova, a neve caindo mansamente nas quebradas do Monte do Crasto e de
Merouço, e o velho Padre Alberto de Travassos, que pastoreava também a
minha pequenina freguesia de Brunhais, avisando, como sempre, que não
haveria Missa do Galo na noite de Natal.
De todos os doces que se
serviam na sobremesa da Consoada (e eram muitos) depois de forrados os
estômagos com as postas do bacalhau, as batatas e as couves regadas com
o doce azeite lagareiro, o que eu mais gostava de saborear eram os pinhões.
Não aqueles pinhões que se compravam nos armazéns ou nos empórios,
descascados e secos, e embalados em papel de celofane. Pinhões vindos
de fora. Da cidade. Pinhões estrangeiros.
Os meus pinhões eram outros.
E eram outros porque, além de não serem comprados nos armazéns ou nos
empórios, não serem descascados nem secos, nem embalados em papel de
celofane, eram meus. Só meus. Era eu que ia varejar as pinhas no
pinheiro manso junto da casa da velha Maria do Bernardo, já quase na saída
do Lugar do Alto, e as colocava na cinza do borralho para aquecer e
abrir, e soltarem os pinhões.
E a alegria de os jogar num
alguidar cheio de água, para ver os que eram bons e os que não eram?
Os que flutuavam na água eram ocos e eu os atirava nas brasas da
lareira onde ferviam os potes que coziam as postas de bacalhau, as
batatas e as couves. Os que afundavam e se juntavam no fundo do alguidar,
esses eram bons. Eram os meus. O prêmio por esfolar os joelhos e as mãos
entre os galhos do velho pinheiro manso, varejando as pinhas perfumadas
de resina.
Comi os meus pinhões, pela última
vez, naquela terça-feira de lua nova, 24 de dezembro de 1957. Em abril
de 1958 sairia de Portugal, rumo ao Brasil, e lá deixava a minha família,
a minha capa de estudante, a minha guitarra pendurada num prego da
parede e um amor que me ficou para sempre.
Não sei se ainda há
pinheiros mansos em Portugal. Sei que aquele pinheiro manso onde eu
varejava as pinhas, junto da casa da velha Maria do Bernardo, já quase
na saída do Lugar do Alto, há muito foi derrubado e serrado, e só a
sua lembrança ainda me floresce na memória. Mas uma coisa eu sei. Um
dia ainda há de haver uma Consoada com pinhões, que eu pegarei nem que
seja no último pinheiro manso que houver em Portugal, ou no mundo, e o
que eu não fui e deveria ter sido, há de ser e ficar para sempre. Para
sempre haverá pinhões nas nossas Consoadas e em todas elas nos
lembraremos daquela neve e daquela lua nova daquela terça-feira, 24 de
dezembro de 1957. E as lembranças, plasmadas na memória, tenho certeza,
nos farão ganhar todo o tempo que perdemos.
Cunha de Leiradella é
escritor, autor de roteiros para cinema, peças para teatro, romances e
contos publicados no Brasil e alguns também em Portugal
In:
Terras de Lanhoso
Copyright:
Cunha de Leiradella