Conto

 

TRAPOS

Por José Abílio Coelho

 

O corredor era branco, estreito e comprido. De ambos os lados, aferradas às paredes nos intervalos existentes entre as várias portas que davam acesso aos gabinetes médicos, havia macas assentes em estruturas metálicas e sobre elas doentes e acidentados à espera de vez para serem atendidos. Estranhamente, todos eles se encontravam em silêncio, como se pensassem que só a morte é barulhenta.

A meio do corredor, encostado num pedaço de parede livre de portas, havia um banco corrido, com uns três metros de comprimento, no qual se sentava uma boa dezena de pessoas, também à espera de consulta. Todas tinham apertadas nas mãos as fichas de papel amarelo que lhes davam à entrada da Urgência, quando faziam a inscrição. Estavam caladas, a maioria de cabeça baixa e olhos esbarrados no chão azulado e muito limpo. Um relógio redondo, de metal, estava pendurado por sobre uma das portas do fundo e os seus ponteiros marcavam nove horas e dez minutos. O calor começava a apertar.

Uma enfermeira de meia-idade colocou a cabeça de fora da porta de um dos gabinetes e chamou alto pelo nome de um dos doentes.

— Sou eu — respondeu alguém.

— Pode entrar — disse a enfermeira, encerrando a porta logo que o doente a atravessou.

Os que ficaram sentados aconchegaram-se uns aos outros no banco, de forma a criarem espaço destinado a mais um dos muitos doentes que esperavam em pé pela sua vez, e o silêncio voltou ao corredor. Um homem enorme, de pele escura e bigode branco, vestindo uma calça clara de brim e uma camisa fina, de manga curta, apontou com o queixo a ponta livre do banco à mulher que estava a seu lado e mandou que se sentasse.

— Não, eu aguento — respondeu a mulher.

O homem teimou:

— Vá, Carolina, senta-te. Pelo que aqui vai, parece-me que temos muito que esperar.

— Senta-te tu.

— Não quero sentar-me — disse o homem secamente, enquanto enxugava as gotículas de suor que lhe salpicavam a testa. — Estou bem em pé.

Encostou-se à parede, entrelaçou os dedos das mãos atrás da costas e quedou-se em silêncio. Durante alguns segundos arrependeu-se de não ter trazido um jornal desportivo para entreter a espera, mas logo se esqueceu do jornal para concentrar a atenção no movimento que surgiu dos lados da porta de entrada, que se abriu, deixando passar uma lufada de ar fresco. A brisa momentânea fez diluir um pouco o inquietante calor e o intenso cheiro a medicamentos que pairavam na afunilada e silenciosa sala da espera.

Um maqueiro, trajando de branco da cabeça aos pés, vinha do fundo do corredor trazendo pelo braço um homenzinho acidentado. Era muito velho, e do nariz corria-lhe um fio de sangue que já empapara a camisa ao nível do peito. O velho mexia-se lentamente, como se aquela fosse a sua derradeira caminhada, e o maqueiro, quando chegaram a meio do corredor, indicou-lhe a ponta do banco, ainda livre.

— Sente-se e espere.

O velhote sentou-se e suspirou. Apalpou o bolso do casaco, de onde retirou um lenço com que secou o sangue do nariz, mas mal acabara de o guardar já um outro fio seguia o caminho sulcado nas rugas da face, contornando a boca, descendo-lhe até à ponta do queixo, para se precipitar em pingos grossos sobre a enorme mancha vermelha que lhe tingia o peito da camisa. Sentia dores horríveis, mas nem assim esboçou outro gesto que não fosse o de acomodar-se serenamente ao encosto do banco, levantando o rosto numa tentativa fracassada de estancar a hemorragia.

Lá de fora chegou o ruído abafado da sirene de uma ambulância e pouco depois a porta do fundo voltou a abrir-se para dar entrada a uma maca que foi encostada à parede, ao pé da porta. Um bombeiro, vestindo um fato-macaco azul com três listas alaranjadas no peito e nas mangas, colocou um envelope fechado entre o colchão e a estrutura metálica da maca, disse qualquer coisa em voz baixa a um maqueiro que se encontrava sentado numa poltrona junto à portaria, sorriu levemente e foi-se embora. O velho da hemorragia baixou a cabeça. Na posição em que se encontrava, o sangue que escorria do nariz entrava directamente entre a camisa e a pele, descia pelo peito e começava a alojar-se na parte posterior das calças, tingindo de vermelho o assento do banco. Voltou a procurar o lenço no bolso, limpou-se e ficou com ele a pressionar o local da ferida. Ao ver que o olhavam fixamente, disse, sem que lhe tivessem perguntado nada:

— Caí!

Ninguém respondeu.

— Podias ter-te sentado — disse o outro homem à esposa. — Ainda vamos ter muito que esperar.

A mulher, alta, esguia, evidenciando traços que permitiam avaliar ter sido na juventude muito bonita, vestia apenas uma bata sem mangas, com minúsculas florinhas estampadas, e calçava umas sandálias baixas de palha entrançada. Aproximou-se mais do marido e falou-lhe baixo, perto do ouvido:

— Vê se te calas. Esse homem está pior que eu.

— Aqui ninguém está pior — resmungou o marido.

— Cala-te, homem, que Deus pode-te castigar.

— Deus?! Ora!, Deus...

A mulher deitou-lhe um olhar frio e o homem ficou calado durante uns segundos. Depois, voltou a resmungar alguma coisa imperceptível e saiu de ao pé dela para se encostar à parede branca, do outro lado do corredor, exactamente entre o fim do banco ocupadíssimo e a porta fechada de um dos gabinetes.

De vez em quando uma das portas abria-se, dando passagem a pessoal médico que transitava apressado no corredor, deixando atrás de si o chiar abafado das solas dos sapatos no piso sintético, para entrar noutras portas que se fechavam de seguida.

Uma enfermeira de meia-idade saiu do elevador e, saltitando, dirigiu-se à porta junto da qual o homem se encontrava.       

— É uma vergonha — disse-lhe o homem, como se se dirigisse a um holograma.

— O quê?! — perguntou a enfermeira, apanhada de surpresa.

— Que estejamos todos aqui a morrer, e ninguém nos atenda!

A enfermeira não lhe respondeu; já estava habituada às reclamações. Abriu a porta com a sua mãozinha branca e pequena, entrou, vestida de anjo imaculado, e voltou a fechá-la. Quando o estalido da língua a correr na fechadura deixou de se escutar no silêncio quase absoluto do corredor, a mulher foi colocar-se ao pé dele e voltou a repreendê-lo em voz baixa:

— Não tinhas o direito. A senhora está a entrar ao serviço e nem sequer sabe o que se passa...

— Ora — disse o homem, gesticulando. — Estamos para aqui a morrer e ninguém nos atende...

— Como!? — exclamou a mulher, embora tives-se escutado perfeitamente as palavras do marido.

— Disse que estamos todos para aqui a morrer e que ninguém nos dá atenção...

A princípio, a mulher ficou calada. Depois, num ímpeto, respondeu-lhe com rispidez:

— Para o caso de tu ainda o não saberes, a doente, aqui, sou eu. E não me ouves lastimar.

— Não se falando, está-se aqui todo o dia. Morre-se para aí a um canto, como um desgraçado dum cão.

— Se alguém aqui está a morrer, não és tu— disse-lhe a mulher já visivelmente alterada com a impaciência do marido.

O homem respondeu-lhe nos mesmos modos:

— Aos oitenta anos, não são só os doentes que morrem. Cada minuto que aqui passo, à espera que te atendam, é um pedaço de vida que me tiram. Achas que isso não é morrer?!...

A mulher escolheu calar-se.

A porta de um gabinete abriu-se e, ainda antes de o doente que tinha sido chamado vinte minutos antes sair para o corredor, escutou-se a voz metálica da enfermeira:

— António Mariano.

Um homem que estava sentado no outro extremo do banco levantou-se e, lenta e silenciosamente, começou a dirigir-se para a porta aberta, com a ficha amarela presa entre os dedos de uma das mãos. O seu lugar ficou vazio no banco comprido.

— Senta-te agora — disse o homem, virando-se para a esposa.

— Senta-te tu, que estás a morrer.

O homem ia responder-lhe mal quando, uns bons metros à sua direita, uma porta se abriu. Era a última sala do lado nascente do corredor. Uma enfermeira, visivelmente arreliada, saiu, deixando a porta escancarada. Sem grande interesse, o homem soletrou a palavra que estava inscrita numa placa de metal afixada a meio da porta: «Nebulizações...»

A curiosidade levou-o a inclinar-se um pouco sobre a sua direita, de modo a poder observar o que se passava dentro da sala. Como o não conseguisse, desencostou-se, colocou ambas as mãos atrás das costas, tentando disfarçar a curiosidade, e deu uns passos, junto à parede, para o lado da porta escancarada. Lá dentro, ao fundo, havia uma fila de cadeiras pretas. Só uma estava ocupada por uma senhora de muita idade, magra, os cabelos completamente brancos contrastando com a cor preta das roupas que vestia. Tinha as pernas esticadas, as mãos esquálidas poisadas sobre os joelhos, com as palmas abertas voltadas para cima. A parte de trás da cabeça estava apoiada na parede. Uma pequena máscara de plástico transparente ajustava-se-lhe sobre a boca e o nariz, e o seu peito arfava em movimentos de grande desespero.

Quando o homem entrou no seu campo de visão, desencostou levemente a cabeça e falou-lhe qualquer coisa sem retirar a máscara. Os seus olhos eram dois pontos de lume e a sua voz um sussurro. O homem não entendeu o que a mulher lhe dissera e disfarçou, como se não fosse nada consigo. A mulher continuou a falar e a fazer gestos curtos e lentos com as mãos magras e muito pálidas.

A situação incomodava-o. Pensou em bater à porta por onde vira entrar a enfermeira, chamá-la para acudir ao desespero daquela alma, reclamar contra tudo e contra todos, mas reconsiderou: «Não é nada comigo».

Tentou virar as costas à porta, voltar ao seu lugar ao pé do banco, mas algo o impedia de fazê-lo. Os olhos da mulher, muito redondos e abertos, faiscavam numa súplica.

— Quer alguma coisa? — perguntou, dando um passo em direcção à porta e colocando apenas a cabeça do lado de dentro.

Num gesto débil, a mulher levou uma mão ao rosto e desviou ligeiramente a máscara.

— Que me telefonasse ao meu marido... que não sabe que estou aqui.

A sua voz saía a custo, entrecortada pelos movimentos forçados do peito num vaivém aflito. Voltou a colocar a máscara no seu lugar e, com os mesmos gestos lentos, retirou de um dos bolsos uma pequena agenda. Não conseguia falar. Tinha a máscara colocada sobre o nariz e a boca, os olhos toldados pelo desespero, uma mão de novo colocada sobre o joelho, com a palma virada para cima, enquanto a outra, trémula e magra, lhe apontava o pequeno bloco.

— O número está aqui.

— Não sei o que quer — mentiu o homem virando-lhe apressadamente as costas para se dirigir ao antigo lugar, entre o banco e a porta do gabinete médico. Sentia-se mal por nada fazer, mas pensou que talvez fosse melhor assim. Voltou a arrepender-se de não ter trazido um jornal, e depois perdeu-se a pensar no gato Manchinha que lhes tinha morrido quatro dias antes.

«Boa companhia», pensou. «Mas havemos de arranjar outro... Nem sei. Sempre escutei dizer que gatos ao pé de doentes não é bom... para mais, na nossa idade, o que queremos é quem olhe por nós».

Lembrou-se sem arrependimento de quantas ninhadas de gatos afogara quando era pequeno, e voltou a pensar em Manchinha e na companhia que lhes fizera durante mais de onze anos.

Do fundo do corredor chegou outra maca, empurrada por dois bombeiros. Atrás dela, uma mulher ainda jovem chorava num aflitivo silêncio. A esposa do homem desviou-se ligeiramente do local onde se encontrava para deixar passar a maca.

— É uma criança — disse ao marido quando regressou ao lugar.

— E isto não anda nem desanda — respondeu-lhe o homem.

— Sossega, por favor.

— Olha-me as horas que são!

A mulher fez um sorriso triste.

— As horas são uma invenção dos homens.

— E o deixa-andar é a desculpa dos tolos.

Calou-se, arrependido do que dissera. Observou a criança, serenamente acomodada na maca desproporcional ao seu tamanho, e pensou que nunca puderam ter filhos. «Se os tivéssemos, tudo era diferente. Mas agora não vale a pena pensar nisso. Podia era ter trazido um jornal...»


O doente que estava sentado na ponta do banco, ao pé do homem, levantou-se e perguntou:


— Onde será a casa de banho?

— Ao fundo do corredor, à direita — responderam.

O homem sentou-se no lugar deixado vago. Era gordo, e quase não cabia no espaço. Nessa altura, a porta de um dos gabinetes abriu-se e a voz da enfermeira chamou alto:

— Alexandre José.

Quando o doente que acabara de ser chamado se levantou, levando nas mãos a ficha amarela, o homem aproveitou o espaço e, deixando de sentir resistência da senhora que estava a seu lado, puxou a esposa por um braço e obrigou-a a sentar-se. Falou-lhe de passagem na mulher doente que estava na sala de nebulizações, mas nada lhe disse sobre o pedido que esta lhe fizera.

Uma das portas do corredor, que não aquela por onde já haviam entrado três doentes, abriu-se e os bombeiros empurraram a maca que tinha chegado há pouco, com a criança. Doentes de outras macas que já ali se encontravam quando chegaram, mantinham-se estranhamente calados.

— Nunca mais chega a nossa vez — voltou a resmungar o homem.

— Tem calma — disse-lhe a esposa. — Há pessoas mais necessitadas de assistência do que eu.

— Estamos aqui a sofrer e isto não anda. Um pobre muito sofre!

— Aqui somos todos pobres.

— Parece-te, mas não somos. Alguns têm mais sorte.

— Todos pobres — repetiu a mulher. — Os ricos não vêm aqui e, mesmo que viessem, sem saúde, eram iguais a nós. Quem está doente é pobre.

— Os que já entraram são ricos...

O rosto da mulher apresentava agora um estranho cansaço, estava pálido e baço.

— Estou doente e muito cansada. E essa tua insatisfação ainda me está a pôr pior. Vê se te calas!

Mas o homem não se calou. Continuou a reclamar baixinho contra a velhice, contra o governo, contra o estado da saúde e contra os ricos de sorte que entravam primeiro que os que nunca tinham tido sorte na vida.

A esposa olhou o relógio redondo de alumínio, dependurado a meio do corredor, por sobre uma das portas. Marcava onze menos dez. Não fosse a doença e estaria em casa, ocupada a cozinhar para o marido. Mas há vários dias que se não sentia bem. Se lhe perguntassem, nem saberia dizer aquilo de que se queixava, mas sentia-se doente, cansada, muito cansada, como se o seu corpo franzino fosse apenas pele, e por dentro não houvesse mais nada, nem ossos, nem órgãos, nem nervos, nem veias. As palavras do marido entravam-lhe nos ouvidos como se viessem de muito longe, como se a boca que as pronunciava não existisse, como se o corredor fosse apenas um túnel por onde perpassavam palavras sem sentido e imagens sem contorno.

Assustada, a mulher levantou-se. Estranhamente, todas aquelas sensações foram desaparecendo. Não sentia as pernas, nem os braços, nem dores, nem o cheiro intenso a medicamentos que pairava no corredor.

— Estou melhor — disse ao marido. — Podemos ir-nos embora que estou melhor e já não preciso de médico.

— Já que aqui estamos...

Não completou a frase. A mulher caiu e foi levada às pressas pela porta escancarada de um gabinete. Não o deixaram entrar. Quedou-se sentado, por mais de meia hora, até que a enfermeira voltou a abrir a porta e chamou:

— Está aí algum familiar da senhora Carolina da Silva?

Nessa noite, ao homem, a casa pareceu-lhe demasiado grande, tal como o infinito silêncio que havia dentro dela.

© José Abílio Coelho